Ocupando a posição da segunda maior economia mundial a China apresenta uma trajetória impressionante no cenário econômico mundial.
Marcus Frediani

A China é um país de contrastes, marcado por profundas diferenças e contradições, nos aspectos socioeconômicos, geográficos, culturais e políticos. E embora tenha se tornado uma superpotência global – causando, por isso, constante preocupação aos donos do pódio, os Estados Unidos –, ela enfrenta desafios internos significativos. Entre eles estão a desigualdade econômica e social, a diversidade étnica e cultural, as diferenças regionais, o contraste urbano-rural e, claro, uma curiosa convivência entre sistemas políticos-administrativos de governança, aparentemente antagônicos, mas que, do ponto de vista da economia, tem funcionado muito bem.
Idelogicamente a China é definida como um regime socialista de partido único – o Partido Comunista Chinês –, que, entretanto, adota uma economia de mercado, frequentemente chamada de “Socialismo com Características Chinesas”. Na prática, significa que ele combina um forte controle estatal sobre setores estratégicos com elementos capitalistas, como a propriedade privada, mercado de ações e uma vasta rede de empresas privadas, que deu gênese a um inusitado modelo híbrido. Esse sistema combina o controle centralizado do PCCh e a predominância da propriedade estatal com mecanismos de mercado, competição privada e integração na economia global.
O DRAGÃO ACORDOU
Explicar o momento atual vivido pela China no cenário global, em alucinante ritmo de uma evolução constante, que tanto incomoda e preocupa os operadores do comércio do Ocidente – como, aliás, acontece aqui no Brasil – exige enveredar por uma análise histórica profunda, que remonta a 1º de outubro de 1949, data da conclusão da Revolução Chinesa, sob a liderança de Mao Tsé-Tung, que proclamou a República Popular da China, transformando a nação em um Estado comunista após décadas de guerra civil contra os nacionalistas (Kuomintang). O processo encerrou o período imperial (1911) e feudal, resultando em reforma agrária, industrialização e alinhamento com a então União Soviética.
Para reafirmar sua liderança e combater influências capitalistas e ocidentais, o país entrou na chamada Revolução Cultural, marcada por um período de grande instabilidade social, como maior e menor intensidade, perdurou até 1976, ano da morte de Mao. A partir daí, o governo chinês iniciou uma série de reformas econômicas, evoluindo rapidamente, já a partir de 1978, sob a liderança de Deng Xiaoping, que ganhou a reputação de “Arquiteto-Chefe” da Reforma e Abertura do Boluan Fanzheng – que, literalmente, significa “eliminar o caos e voltar ao normal” –, período da história da República Popular da China durante o qual Deng, como líder supremo dela, sistematicamente passou a corrigir os erros da Revolução Cultural.
Dessa forma, o programa desmantelou gradualmente as políticas maoístas associadas à Revolução Cultural, reabilitou milhões de vítimas que foram perseguidas durante ela, e trouxe o país de volta à ordem de forma sistemática. E ao adotar o chamado “Socialismo de Mercado”, a China abriu sua economia e passou a evoluir rapidamente, combinando o planejamento estatal rígido com mecanismos capitalistas, atraindo investimentos estrangeiros com mão de obra barata, investindo massivamente em infraestrutura e incentivando a produção privada, o que acabou por tornar aquele país asiático a “Fábrica do Mundo”, elevando-o à segunda posição no pódio das maiores economias globais, com um PIB em 2025 próximo a US$ 20 trilhões, apenas atrás dos Estados Unidos, com mais de US$ 30 trilhões, segundo projeções do FMI.

Contudo, atualmente – talvez até como efeito da rapidez e do gigantismo de seu desenvolvimento –, a economia chinesa enfrenta uma fase de desaceleração, atrelada à continuidade de uma crise imobiliária profunda, consumo doméstico fraco, alto endividamento e envelhecimento populacional. Simultaneamente, o modelo antigo, baseado em investimentos pesados em infraestrutura, parece ter se esgotado, enquanto a demanda externa oscila e a confiança do consumidor interno permanece baixa.
UM FUTURO QUE RESERVA SURPRESAS
Mesmo diante dos desafios enfrentados e nocaso específico da siderurgia a China continua a manter a liderança isolada na produção mundial de aço. E, segundo os dados da worldsteel divulgados no final de janeiro, a folga relacionada à fabricação de outros países é enorme: o volume global de aço bruto fabricado em 2025 foi de impressionantes 1,804 bilhão de toneladas, com retração de 2% sobre o ano anterior, porém com aquele país asiático sendo responsável 960,8 milhões de toneladas de aço bruto, o que representou 53% do volume total do planeta, anos-luz à frente do segundo colocado nesse ranking, a Índia, com 150 milhões de toneladas. A China produz atualmente em 11 dias, o que o Brasil produz em um ano.
E mesmo com barreiras em diversas partes do mundo, em especial nos Estados Unidos, onde enfrenta uma tarifa de 70% e onde praticamente não vende, a China exportou no ano passado 119,02 milhões de toneladas, alta de 7,5% frente a 2024, segundo a Associação Chinesa de Ferro e Aço (CISA). Segundo especialistas, as vendas ao exterior cresceram para compensar parcialmente a retração do mercado doméstico.
Ainda segundo analistas, a siderurgia chinesa deverá continuar enfrentando uma desaceleração estrutural em 2026, com produção em recuo, mas mantendo o domínio global por meio de subsídios estatais e exportações de baixo custo. Assim, a expectativa é de que o setor, liderado por gigantes como a Baowu Steel Group, deverá seguir buscando consolidar a capacidade produtiva enquanto pressiona mercados externos, como o brasileiro, com exportações de aço barato. E tal reação já encontra fulcro nos recentes resultados divulgados com relação à produção de aço na China, que aumentou para 76.100 mil toneladas no mês de fevereiro, na comparação com as 75.300 mil toneladas produzidas em janeiro de 2026.
E uma estratégia que certamente tem potencial para impulsionar esse movimento está relacionada à mina de ferro de Simandou, localizada nas terras altas do sul da Guiné, na África, considerada o maior e mais rico depósito inexplorado de minério de ferro do mundo, com reservas estimadas entre 2,4 a 3 bilhões de toneladas e alto teor de ferro-, aproximadamente 65%-. Para explorá-la, o planejamento inclui uma infraestrutura colossal, com a construção de uma ferrovia entre 600km a 650km para transportar o minério até a costa atlântica, além da construção de um novo porto de águas profundas.
É um empreendimento extremamente complexo, dividido em quatro blocos, que demandará investimentos totais estimados em cerca de US$ 20 bilhões, a serem desembolsados por múltiplos players e consórcios, entre eles a mineradora multinacional anglo-australiana Rio Tinto, operando por meio da joint venture SimFer, e com forte presença chinesa, envolvendo a Chinalco, a WCS, o China Hongqiao Group e o já citado Baowu Steel Group.
O megaprojeto já começou a operar e novembro do ano passado, marcando um novo capítulo na mineração global, tornando-se um concorrente direto da Vale e da BHP no fornecimento premium de minérios para a produção siderúrgica.
NOTA DO EDITOR: Dada a necessidade de se conhecer mais profundamente os crescentes impactos da China no cenário global, a revista Siderurgia Brasil voltará ao tema nas próximas edições, trazendo uma entrevista exclusiva com um especialista e consultor internacional sobre a peculiar arte de se negociar com os chineses. Não perca!

